sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Serviria para o dia de hoje


Este eu recebi como um acalento num momento difícel

Bom fim de semana. Esqueça ICM e esta loucura, se entendemos a dinâmica das coisas não podemos deixar nos atingir por esta doença.
Tu sabes o teu valor e é porque ele existe, é grande e ameaçador que muitas vezes és agredida e caluniada.
Dóris
Tua amiga de sempre .
15/3/1985
Viva Nova Republica!
Faremos com que ele aconteça, realmente, em algum lugar.







representando

 Fala proferida no Seminário "Unidos Seremos Fortes", realização do Núcleo RS da Rede Nacional de Religião Afrobrasileira e Saúde e a Congregação em Defesa das Religiões Afrobrasileiras, no dia 21/01/2011- Dia Nacional de Combate à Intolerância  Religiosa.
                                                                    Sandrali de Campos Bueno

                Inicialmente, quero agradecer a deferência e o respeito a mim prestados pelo Baba Diba de Yemonjá e por Mãe Vera de Iansã que , nas suas falas, ao citarem as pessoas que compõem a mesa, saudaram-me a partir do lugar que ocupo no movimento social como ialorixá. Para mim é uma honra já que antes de toda minha formação acadêmica , política e ideológica , eu represento uma ancestralidade milenar. Tenho ori, tenho identidade, minha matriz é africana. Sou ialorixá , sou filha de Oxum e Xangô.

                     Neste momento, em que aqui represento a Dra Sandra Genro, Primeira Dama do Estado do Rio Grande do Sul, que só não está presente neste seminário devido a outro compromisso,  peço licença para os mais velhos nas pessoas de Mãe Maria de Oxum e Mãe Norinha de Oxalá pois vê-las aqui muito me emociona e para controlar um pouco essa emoção e não me estender na minha fala pois aqui estou mais para ouvir do que para discursar, vou ler um breve texto que escrevi.
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O lugar da Primeira Dama no Governo Tarso Genro
                    
  
                                                                                 
            Historicamente as Primeiras Damas ocuparam um espaço tradicionalmente constituído como protagonistas de ações assistencialistas, ou promovendo campanhas que lhes atribuíam um significado de mãe senhora de caridade distribuidora de benesses e migalhas aos mais humildes ou ainda representando o papel da mulher na sociedade patriarcal, racista e preconceituosa.
                 Ora, isto não combina com o Estado de Direito, não combina com a modernidade, não combina com o Estado Democrático, não combina com um Governo que pretende dar conta das demandas da população de forma democrática, transparente, transversal e integrada. Com esta premissa, o lugar da Primeira Dama, no Governo Tarso Genro, é um lugar a serviço dos programas do Governo, das Secretarias, das demandas dos movimentos sociais por dentro das secretarias e de seus departamentos. Não há a intenção de criação de benesses ou de programas compensatórios que só servem para mascarar a ineficácia dos governos. O Estado tem que funcionar e ponto. Os cidadãos têm direitos e o Estado tem que amadurecer na busca e no encontro de caminhos para a superação de dificuldades históricas na interlocução da sociedade com o Poder Público.
                   Por isto, o Gabinete da Primeira Dama tem uma estrutura enxuta. Nada de protagonismo, nada de benesse, nada de caridade, nada de projetos assistencialistas e sim, a busca de autonomia, de cooperação, de parceria, de disponibilidade efetiva, de representatividade nos programas e ações do Governo com um todo, seja em que secretaria esteja a demanda da população e sejamos acionados a contribuir.
                   Para nós, como refere Zelia Fajardini, a Grande Generosidade está em lutar para que, cada vez mais, as mãos que se estendam para ajudar a população sejam de homens e de mulheres que trabalhem para transformar o Rio Grande, o Brasil , o Mundo em uma sociedade igualitária, onde não haja intolerância religiosa ou qualquer outro tipo de intolerância, a não ser a intolerância contra o desamor.
                  Encerro dizendo que meu papel neste encontro é o da   escuta política, sim, mas essencialmente, o do diálogo onde possamos avançar na construção de políticas que promovam o Povo Negro e, no futuro, cada um de nós possa declarar que contribuiu para erradicar a intolerância religiosa.
                   21/jan/2011
Sandrali de Campos Bueno


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Construindo a verdade



Relatório elaborado a partir da visita a uma unidade da Fase/RS

                                            Em busca da Verdade


   Considerações Iniciais:
     
     Dizem que quando a Verdade foi jogada sobre a Terra, ela se fragmentou em vários pedaços. Cada um que pegou um pedaço disse: Eis aqui a Verdade, eu a tenho. Vários são os diagnósticos e relatórios que se apontam em relação ao Case, de acordo com o olhar e o lugar de quem o aborda e todos têm uma parte da verdade. Supervisores vêem o Case e dizem que falta unidade na ação; psicólogos vêem e dizem que falta motivação, auto-estima; administradores vêem e dizem que falta capacidade de gestão; políticos vêem e dizem que falta articulação e fidelidade ao programa de governo; educadores dizem que falta projeto pedagógico; advogados dizem que falta cumprimento de leis; agentes de segurança dizem que falta disciplina e hierarquia; alguns falam que há omissão; outros que há incompetência; outros que há perversidade. Cada especialista expressa seu saber, sua experiência, sua opinião a respeito do Case, nem sempre se dando conta que tem apenas uma parte da verdade.

    E agora vimos nós, também relatar sobre o Case. Pois que nos demos conta que, ao explicitarmos nossas considerações, estas são apenas parte da verdade e se, por vezes, parecer-lhes a verdade toda é apenas resultado do nosso compromisso com a história de doze anos desta Unidade; é apenas um alerta para uma visão mais ampla acerca do desafio de enfrentar nossas contradições e divergências no trato da dinâmica institucional; é apenas para reforçar aquilo que pensamos deva ser ressaltado no resgate do protagonismo institucional de cada servidor daquela Unidade: é apenas para reforçar o traço daquilo que nos parece ser a essência de nossa contribuição enquanto servidora há quarenta e um anos, desta Fundação.

   
Não temos a pretensão de oferecer a receita, mesmo porque a transformação deve ser vista de forma transdisciplinar, deixando todas as linhas de saberes se entrecruzarem e que a abordagem sócia educativa seja praticada a partir da vivência de pessoas reais e protagonistas de sua ação.
  
  Metodologia:

           Técnicas Utilizadas:
            Entrevistas individuais, reunião, observação do cotidiano institucional em horários diferenciados.
           Descrição: realizamos entrevistas com: - dois chefes de equipe, três agentes sócio-educativos, diretora, assistente de direção, assistentes administrativos, três técnicos. Participamos de reuniões com: equipe técnica; escola; setor de saúde.
           Carga horária: 6h/diárias distribuídas nos turnos manhã ou tarde de acordo com a necessidade.

  Considerações Gerais

      Embora, após a solicitação, tenha sido feito um planejamento de visitas, em um período mais abrangente para executar a tarefa, é possível elencar os dados observados, bem como contextualizar as falas e as manifestações dos servidores do Case/, mesmo que não tenha sido dada continuidade ao procedimento, uma vez que a escuta qualificada confere subsídios para analisar a realidade da Unidade, neste momento.

     Percebemos que o clima atual na Unidade é pautado pela desconfiança, pela dissociação, pelo descrédito na intervenção da sede, pelo sentimento de menos-valia, pela falta de hierarquização dos procedimentos; pela insegurança e pela descrença na capacidade de se auto-gerenciar.

     Acreditamos que a Unidade vinha caminhando razoavelmente na busca de sua reestruturação, até o advento do tumulto, quando se explicitaram as contradições nos encaminhamentos e orientações, no gerenciamento da Unidade como um todo.

     Observamos um sentimento generalizado, e até algumas verbalizações, de que o Case está servindo de ‘bode expiatório’ dos problemas gerais oriundos da missão da Fundação de executar a medida sócio-educativa de internação.

     Entendemos que a falta de unidade na intervenção contribuiu para aumentar a dissociação causada pela desconstituição do papel de cada servidor na realização de sua tarefa.

     A repetição de pautas de comportamento, já vivenciados pelos servidores do Case, em outras administrações, provoca uma reação de resistência e, ao mesmo tempo, de apatia frente à necessidade de re-construção dos mecanismos de sustentação do Plano de Atendimento Coletivo.

     As falhas significativas na comunicação e a falta de transparência nas decisões contribuem para o aumento da distorção das informações, bem como deslegitima as ações sócio-educativas, além de criar um clima que corrompe a dinâmica institucional.

     A constante ‘negação’ da história da Unidade e as intervenções a partir da visão unilateral, bem como a introdução de práticas oriundas de outras unidades, acarretam no não-comprometimento na execução das ações deliberadas.

     Considerações finais:

       Ao afirmarmos, no início, que as considerações que exporíamos, é apenas parte da verdade, entendemos que a verdade toda deva ser construída (ou re-construída) na intersecção da verdade de cada servidor, cada servidora do Case. Entretanto deixamos algumas propostas, visando uma intervenção que se legitime através da ação cotidiana, protagonizada por todos envolvidos na dinâmica institucional e na execução do PAC e na tarefa primordial de cumprir com o Estatuto da Criança e do Adolescente. A partir daí, sugerimos:

- resgate da identidade profissional do servidor, onde a relação de trabalho seja uma experiência prazerosa e construtiva, através de uma ação bem vivenciada, concreta, possível e construída conjuntamente;

-proposição de práticas que tenham uma abrangência organizativa, comprometida com os recursos do ‘aqui e agora’, com mudanças para todos e garantindo o bem estar de todos os servidores;

-utilização de mecanismos de sustentação e enraizamento de espaços de reflexão e intervenção qualificada nas questões das relações interpessoais que interagem no ‘fazer o sócio-educativo’;

-criação de espaço permanente de formação com objetivo de promover o resgate da auto-estima do servidor, enquanto sujeito protagonista da história da Unidade;

-definição do processo de gerenciamento dos recursos humanos disponíveis na Unidade (‘definir o que se quer e fazer com que aquilo que se quer aconteça’);

-estabelecer um acordo ou ‘pacto gerencial’ com os agentes sócio-educativos, no sentido da distribuição da carga horária no atendimento da demanda da Unidade.

 29/9/2011
                                    Sandrali de Campos Bueno
                                        

Resposta a uma filha de santo






Minha filha,

             Talvez eu tenha tido uma reação de leoa querendo proteger seus filhotes, além do ciúme por terem procurado alimento fora do meu domínio. Por outro lado penso que o fato de vocês quererem me poupar pode causar problemas maiores, principalmente nesta área religiosa. Somos um clã e como tal temos que agir. Se um membro do clã está fragilizado é importante que sejam reunidas todas as forças para que possamos fortalecer os elos da corrente.Os problemas de vocês são meus também e vice-versa. Sempre haverá tempo para consertar as coisas entre nós. Quanto ao aspecto religioso é o seguinte: a nossa religião vem de uma tradição milenar e de uma cultura em que o sagrado e o profano são duas faces de uma mesma moeda. Para nós, viver é uma arte: a arte de nascer, a arte de banhar-se, a arte de comer, arte de brincar, a arte de aprender, a arte de ensinar, a arte de crescer e a arte de morrer. Quero dizer que: o conceito de religião, para nós, transcende o aspecto de re-ligar porque estamos intimamente ligados à natureza, isto é, somos natureza e ela é nós. Para nós tudo tem vida, tudo tem uma correspondência com a vida, tudo tem axé, porque axé é força da natureza. Não somos isolados, formamos uma cadeia de conexões e arranjos; conexões estas que se interligam como nós de uma rede infinita, tecida socialmente por cada um; arranjos estes que se estabelecem a partir de fatos, de sentimentos, de percepções, onde o sentimento, a percepção, o fazer de cada um repercute em todos e no Todo. Quanto maior for a conexão melhor será o arranjo e, quanto melhor for o arranjo, melhor será o tecido social. Isto significa que a cada nó que se dá na rede de conexões todos os demais nós já arranjados sofrem influência direta. Portanto cada um tem que se preocupar com o seu fazer cotidiano e ter o cuidado de proteger a rede no qual está ligado. Um furo na rede compromete a energia de todos, porque enfraquece os elos da corrente protetora que cerca o grupo. Mas enfim quero te dizer que a gente aprende pela experiência vivenciada e “não se faz omelete sem quebrar os ovos“. Tudo vai ficar bem. Beijos. Mãe Sandrali d’Oxum
                                                                     22/04/2010

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Meu Babalorixá



                              

                                                           
Ainda pretendo escrever sobre as historias e episódios que meu babalorixá conta, a partir de sua vivência e convivência de mais de meio século dedicado a religiosidade de matriz africana, em especial, ao batuque, no Rio Grande do Sul, nação Cabinda.
A forma peculiar como ele repassa conhecimento através de sua fala humorada cativa as pessoas de todas as idades. Ele tem um jargão inconfundível – ‘’EU VI, EU ESTAVA LÁ’’- quando se refere a episódios e passagens místicas que envolvem os orixás tanto da casa do seu Baba  , Romário de Almeida, Romário de Oxalá Jobocum Onifã, quanto dos terreiros antigos cuja maioria dos dirigentes já se reintegraram  ao barro mítico da Criação.
Pai Enio, Enio Souza Conceição, Enio de Oxum, é uma enciclopédia viva do batuque no Rio Grande do Sul, em especial da nação Cabinda. Arredio aos encontros e debates, mas acolhedor sempre que alguém o procura para obter dados a respeito da religião. Costuma dizer que o batuque não se aprende nos livros, - é preciso vivenciá-lo no cotidiano.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Momentos breves

De uma alma gêmea

"Estou olhando esse caminho (seguindo)
Não sei retornar como me pedes(sozinho)
Poder estar nele
Nem que por momentos breves,
Porém seguros.
Bem pensados
É o que me faz ficar(tentando)"
                   jan/1987


















segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Como um bom dia

Este é de Zélia Fajardini

"Eu vi que a terra é a nave dos viajantes e quem prepara a estrada somos nós que chegamos antes"
                                                                                   Beijo. Bom dia.
26/03/88

domingo, 25 de setembro de 2011

Uma amiga

Este veio de um adolescente 

 "Quem é você que de repente entrou em minha vida me ensinando a viver?
     Quem é você que quando estou triste quer compartilhar de minha tristeza?
     Quem é você que tem me dado oportunidade de eu poder sentir que não estou só nos momentos mais difíceis desta fase que estou passando?
      Quem é você que tem me tratado como parente ou pessoa íntima se nem sequer lhe conheço bem?
      Que é você que sorri para mim mesmo sabendo que estou triste?
      Você não é minha mãe e nem minha mãe e nem minha parente mas você se interessa por mim e quer saber como vai meu dia a dia.
       Você é uma pessoa muito especial para mim. Você é a minha melhor amiga do momento."
                                                                                                    Gilmar

10/05/1984




sábado, 24 de setembro de 2011

Um adolescente chamado Alcione, em 1984, disse:

Cara e amiga psicóloga Dona Sandra Lee.
                    Eu acabo de descobrir que a liberdade desenvolve o sistema nervoso, e melhora o funcionamento do cérebro.
                    Um ser sem liberdade não evolui. Aqui dentro não utilizamos se quér 1% de nóssa capacidade de pensar, A monotonia é um veneno. Tira a nossa capacidade, o cérbro fica adormecido.
                   É por isso que eu quero ir nem que seja duas vezes por semana na rua. 
                   Aqui dentro tenho a imprenssão que estou andando no meio de robôs, de gente que não vive, não sonha, não tem mistério nenhum,prá eles o que tinha que ser exploradojá foi explorado.
                  Uma prisão não endireita ninguem até estraga mais ainda. Deixa a pessoa revoltada e o cérebro sem progressividade.
                  O que eu preciso é de uma chance e opotunidade porque minha criação não foi pra mim andar roubandomais tarde.
                  Eu só quero confiança pra me dar mais força para prosseguir. A senhora sabe o que eu quero fazer quando sair daqui, isso é se eu sair daqui? se eu aguentar ficar mais algumas semanas aqui enjaulado.
.                   Obs. Foi mantido a configuração original, embora a carta-bilhete tenha sido manuscrita                 

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

No meio de trevos de quatro folhas

Este veio de Nair Tesser

"Uma sorte verde, verdejante pra ti.
           Apesar de que não precisas, porque
     a sorte está dentro de ti."  
1988




quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Um mês depois...Zélia disse:

Sandra
1º- Gol, tu venceu
2º- Vou parar
3º- Calmar, esfriar a cabeça
4º-Sair da defesa e entrar em campo
5º-Parar de ver só as coisas ruins (E.T.)
6º-Ficar do meu tamanho ou próximo disso.
               jogar no time.
                                     isso.

Ah, por último, não quero mais
brigar contigo e nem que
seja carregada de tanta emoção
tua briga comigo.                                              
                                 Zélia




quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Quando me tornei mãe de alguem que não me cabia como filha

Registro de quando me tornei a mãe de alguém que não me cabia como filha.
Esse é um bilhete-poema escrito em guardanapo de papel de seda,que recebi e vou omitir a signatária para não ferir suscetibilidades...

  "Prá Mamãe da ....
“Hoje eu descobri que sou uma mulher.
E tu és extremamente importante nisso.
Tu és a PRIMEIRA MULHER INTEIRA que eu encontro em toda minha vida.
MULHER e INTEIRA: era preciso isso para que eu pudesse nascer.
 Para que eu ... Mulher inteira pudesse nascer só perto de outra mulher inteira.
Então mãe, reparto contigo esta minha hora de filha mulher.
Eu te amo.
A gente não é o outro, mas vem do outro.
Eu não poderia ser, não tinha que vir.
Teve tu e eu te agradeço por isso.
Sei que não te preciso de minha mãe, nem caibo como tua filha.
Mas foi preciso te ter mulher inteira para me saber possível.
Não é piração da minha cabeça.
Tu não estavas no meio quando tudo aconteceu.
Saí da sessão e me veio a imagem da minha mãe: feia, pedaço, negada, doente...
E me vi mulher. Me passou na cabeça algo como essa não é a minha mãe.
E aqui sentada percebo.
Obrigada por ter me tornado possível.
Obrigado Mãe.
Te Amo.
............
5/6/1987.

Meu retorno a Porto Alegre

 Carta aos meus colegas do Case Regional Pelotas        


          Ingressei no mundo do trabalho em 1969, no então Instituto Central de Menores, ligado ao Departamento de Assistência Social-DEPAS, com a atribuição de alfabetizar os' menores' acima de 14 anos, pois estes não eram aceitos na escola que funcionava nas dependências do instituto. Desde o meu primeiro dia de trabalho, deixei explícito que lutaria contra os maus tratos, a negligencia e o descaso. Devido a esta postura, fiz grandes amizades, mas também conquistei alguns inimigos. Certa vez um colega me disse: em relação a ti não existe meio termo: ama-se ou odeia-se.
                   Fui alfabetizadora, praxiterapeuta, monitora, instrutora de artes, auxiliar técnica, coordenadora de ala, assistente de direção, diretora, psicóloga, enfim... Toda minha formação profissional foi forjada na FEBEM e fiz a opção de dedicar-me a esta causa incondicionalmente. Sempre tive orgulho disto. Minha história de vida se mistura com minha história na FEBEM. E ao longo destes 41 anos, são muitas as histórias, são muitos protagonismo, são muitos momentos de companheirismo, muitas aprendizagens que, certamente, superam as frustrações, as tristezas, os conflitos, as incompreensões.
                   Em 1992, quando assumi o espaço  da presidência  do extinto Movimento Assistencial de Porto Alegre - MAPA, que atendia Meninos e Meninas de Rua, no momento de minha posse, no saguão do Paço Municipal onde estavam presentes vários daqueles meninos que utilizavam os serviços do MAPA, principalmente no Albergue Ingá Brita, que os acolhia à noite, um deles, um lindo menino negro, me disse: ' Dona Sandrali, nós chegamos ao poder. ' pois bem, eu estava realizando um sonho impossível. Mas eu falei: Não, nós ainda não estamos no poder: nós só chegaremos ao poder quando não existir mais albergues, quando cada um e cada uma tenham uma casa para viver bem, quando toda escola for aberta para todos, quando cada pai tenha emprego, onde cada mãe seja respeitada, onde cada família seja tratada como o maior bem da sociedade, quando não houver discriminação , nem racismo.
                     Hoje quando Zélia Fajardini diz que a Presença já significa poder, eu me reporto àquele momento, lá em 1992... Minha Presença tinha significado que concedia à alma daqueles meninos e daquelas meninas o sentimento de estarem no poder.
                     E se estou recordando estas coisas é apenas para convencer a mim mesma do quanto já proporcionei o protagonismo no cenário do sonho impossível. Dizer a mim mesma que é possível gerenciar pela alma e eu sei fazer isto.
                     Em 1999 vim para Pelotas. Aqui fui acolhida e vivenciei um sonho de trabalhar numa instituição onde não havia, mas tratos, não havia abuso sexual, não havia drogas. Algumas vezes, e não foram poucas, fomos taxados de rígidos e deixamos de ganhar alguns prêmios devido a tal rigidez. Mas não nos envergonhávamos de aqui trabalhar. Dizem que o PEMSEIS tem muito da proposta inicial do trabalho de Pelotas. Acredito que sim. Mas hoje, talvez sejamos a unidade que mais descumpre o PEMSEIS. Porém eu acredito na essência e na alma de cada um que aqui trabalha e sei que ainda é possível resgatar aquilo que tínhamos de melhor: afeto,  limite e unidade na ação.
                     Nestes doze anos, aqui em Pelotas, procurei repassar - com a alegria despretensiosa e com a disciplina prazerosa pelo trabalho -, minha experiência com os adolescentes em conflito com a lei, tentando fazer cumprir o ECA na execução de medida socioeducativa de privação de liberdade,  embora sabendo que a Fase estampa o fracasso da sociedade no trato de suas crianças e adolescentes e da violência estruturalmente construída. Tive acertos e erros. Mas também aprendi muito e sinto-me grata por isto.
                    Então, passados todos estes anos, surge um novo momento me vejo frente a um desafio dos deuses: vá lá e dê sequência ao teu sonho: É possível gerenciar com a alma e influenciar nas estruturas de poder com simplicidade,  leveza, liberdade e diálogo. E se tiver que disputar que seja para buscar a unidade, que seja para realizar o sonho de viver numa sociedade justa, fraterna, solidária.
                    E daí está, aqui e agora, a expressar a vocês parte do meu Sonho...
Eu sonho que é possível tirar as crianças da rua e proporcionar-lhes uma forma de inclusão social com dignidade, respeito e amorosidade;
Eu sonho que toda criança conheça o mar...
Eu sonho que é possível criar programas efetivos para livrar as meninas e as adolescentes da promiscuidade, das doenças e das drogas;
Eu sonho que é possível cuidar melhor dos doentes mentais;
Eu sonho que é possível realizar campanhas permanentes de ações contra o racismo;
Eu sonho que é possível cuidar melhor das famílias;
Eu sonho que é possível que todas as crianças estejam na escola;
Eu sonho que as crianças negras sejam maciçamente trabalhadas quanto a sua identidade e à autoestima, como as minhas o foram;
Eu sonho que cada empregada doméstica possa voltar a estudar, se assim o desejar;
Eu sonho que toda mulher possa desfrutar de uma terapia, se assim necessitar;
Eu sonho que todos os terceiros sejam respeitados, principalmente aqueles que são dirigidos por mulheres;
Eu sonho em poder trabalhar com as escolas na formação dos professores;
Eu sonho com uma sociedade livre da corrupção;
Eu sonho com a erradicação da miséria, da fome, do analfabetismo;
Eu sonho que a Fase possa cumprir com sua missão na inclusão social dos adolescentes em conflito com a lei e que o afeto e o limite sejam apenas as duas faces da mesma moeda, mas que essa moeda seja a única forma de negociação;
Eu sonho que eu possa circular nas instâncias do poder constituído com a mesma simplicidade, sem precisar fala muito, mas como alguém cuja presença diga mais do que a palavra e que eu possa  acolher sempre, amar sempre e ofertar sempre o melhor cardápio que eu aprendi a fazer.
                                              Obrigada a cada um e cada uma de vocês que fazem parte deste sonho.
                                                                                       Sandrali de Campos Bueno
                                                                                               Mat. 073.7
                                                                                        31/12/2010



















                   






segunda-feira, 19 de setembro de 2011

De passo em passo...


Por ser difícil postar meus escritos numa ordem cronológica , vou separá-los por temas ou eixos que circundam minha vida, como a família, o trabalho, os relacionamentos, a militância, a religião, as histórias, as falas..., enfim, as idas e vindas no meu processo de construção do meu lugar no mundo. Pode não ser o melhor lugar mas é o meu lugar: aquele que eu escolhi antes mesmo de nascer. E assim irei construindo este espaço que minha filha iniciou postando  Primeiros Passos. Pois bem de passo a passo irei construindo minhas postagens buscando meus riscos e rabiscos do passado , soltos ou guardados nas pastas e arquivos ou álbuns de recordações, os textos publicados ou não, as falas ditas ou 'des-ditas', as ideias expressadas ou a serem compartilhadas. E que seja uma boa construção...

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Primeiros passos.

Esse blog é um espaço para idéias e ideais da minha mãe. Um lugar onde poderemos compartilhar dos seus pensamentos, daquilo que lhe alegra, daquilo que lhe indigna.. das coisas que ela ama, das coisas que ela pensa, das coisas pelas quais ela luta... Aqui, os que a conhecem e estão longe poderão matar saudades, os que estão perto poderão ficar mais perto e os que não gostam poderão desgostar. É um espaço como a minha mãe, que não é só minha e da minha irmã mas é da Zélia,dos meus tios, das minhas primas, da família religiosa, do mundo... Eu vou ajudar nos primeiros momentos, depois ela caminha sozinha.


sejam bem vindas/os



Winnie, filha da Sandrali.